BAIRROS SUSTENTÁVEIS

Atualmente, fala-se muito em desempenho ambiental do empreendimento, não só pelos profissionais envolvidos, mas também como apelo de venda. Afinal, quem não valoriza a economia de água e energia, saúde e bem estar traduzidos em empreendimentos confortáveis, seguros, integrados ao entorno, por isso, um projeto sustentável deve ser desenvolvido por uma equipe multidisciplinar, desde a fase inicial do projeto.

Para se desenvolver um bairro sustentável é necessário a integração entre o interesse comercial e as expectativas do usuário, assim atendendo os anseios dos futuros habitantes/usuários, dos investidores e da comunidade.

Pois, sabe-se que a qualidade de vida e a saúde dos usuários estão diretamente ligadas a qualidade dos ambientes externos das edificações, das áreas verdes, dos espaços destinados a recreação e convívio, e qualidade dos equipamentos urbanos.

Por esses motivos, fala-se cada vez mais dos processos de certificação ambiental. Dos mais utilizados no Brasil temos: o AQUA (Alta Qualidade Ambiental); o LEED (Learder-ship in Energy and Environmental Design); e o DGNB (Deutsche Gesellschaft für Nachhaltiges Bauen). Porém, vale salientar que as diretrizes dadas pelos processos citados, não são uma solução única, uma “receita”, para o projeto. São diretrizes de reflexão, e orientações para ações em direção a empreendimentos sustentáveis.

Os temas ligados a sustentabilidade devem ser desenvolvidos através de parcerias entre universidade, setores públicos e privados, alinhados aos quatro elementos chaves para a concepção deum bairro sustentável: urbano; arquitetônico técnico-ambiental; econômico e organizacional.

Neste contexto, pode-se citar a publicação coordenada pela engenheira civil Ana Rocha Melhado, “Projetar e Construir Bairros Sustentáveis”, aonde é apresentado um conjunto de diretrizes e indicadores agrupados em 10 temas ambientais e urbanos, principais ao desenvolvimento sustentável de bairros, semelhantes a Paris Rive Gauche em Paris, na França, mas adaptados ao contexto brasileiro.

OS 10 TEMAS AMBIENTAIS E URBANOS:

Valorizar, renovar e preservar o patrimônio urbano e arquitetônico, edifícios históricos, mobiliários, esculturas, e paisagens. Promovendo a integração da nova construção, retrofit, preservando praças e espaços verdes.

Biodiversidade criando praças, parques, jardins públicos, horizontais ou verticais (paredes verdes), e coberturas verdes. Constituindo assim, um patrimônio natural, usado para lazer e relaxamento, fazendo o percurso dos pedestres sempre mais agradável, reduzindo as ilhas de calor, servindo de proteção contra ventos, poluição sonora, absorção de raios solares, proporcionando sombreamento, e absorção da poluição atmosférica. Respeitando a topografia, a morfologia, e o contexto ambiental e arquitetônico, histórico, e social do entorno. Porém, tão importante como criar é manter! Por isso a importância de Planos Municipais de Arborização – PMA.

Mobilidade urbana, encontrando soluções na mudança de hábitos da população, e num forte investimento do poder público. Medidas como: fácil e rápido acesso ao transporte coletivo; ciclovias, ciclofaixas ou ciclorotas; redução do número de vagas; aumento dos edifícios multifuncionais, que aliam moradia e trabalho no mesmo local; respeito ao desenho universal; zoneamento de uso misto, sistemas de carona e uso compartilhado; e diversidade de oferta de transporte público.

Gestão da energia, reduzindo o consumo e a produção de CO2, afinal somos todos muito dependentes de combustíveis fósseis como o petróleo, o carvão, e o gás natural para a geração de energia. A eficiência energética de uma edificação está diretamente relacionada: a sua implantação e orientação solar; características dos materiais utilizados no seu vedo; escolha dos sistemas de condicionamento de ar e iluminação; a quantidade e qualidade da iluminação e da ventilação natural. Por isso, a importância da escolha do uso de energias renováveis, tais como: solar; eólica; biomassa e geotérmica. Daí vem a importância, da colocação de metas de redução do consumo energético para as construções. Já o Poder Público, fica com o papel de adotar uma energia pública energeticamente eficiente, realizar ações junto a comunidade, visando a sensibilização e orientação desta, e exigir certificação ambiental para os empreendimentos, como por exemplo: AQUA, PROCEL, LEED, DGNB; BREEM entre outras.

A gestão de água envolve: fornecimento de água potável; gestão das águas pluviais; e esgotamento sanitário. A água potável não deve ser apenas economizada, mas também valorizada. Algumas formas de valorização são: priorizar o uso para alimentação e higiene corporal; adotar equipamentos economizadores de água; e verificar possíveis vazamentos. Ao Poder Público, cabe ainda, políticas de sensibilização e orientação da comunidade, melhorias constantes, e manutenções nas redes públicas. Quanto as águas pluviais devem ser adotados sistemas de coleta, tratamento e uso, sendo que, o Poder Público deve incentivar a captação e a armazenagem em reservatórios. E, ainda, determinar as áreas de coleta e o coeficiente de escoamento superficial. Gestão de resíduos, tem como grande desafio limitar a produção de resíduos finais, incentivando a reutilização e a reciclagem. Neste contexto, deve-se relembrar dos 8Rs repensar, reduzir, reutilizar, reciclar, recusar, respeitar, responsabilizar-se, e repassar). Para isso, é necessário a articulação política e programas em vários níveis de governo, envolvendo a comunidade, para que se crie soluções compatíveis com o local. Os modos de viabilização são: redução da quantidade de resíduos gerados; favorecimento da coleta seletiva; incentivo a compostagem; obrigatoriedade de gerenciamento dos resíduos, dentro dos canteiros de obra; redução da poluição sonora durante as coletas; destinação dos locais adequados à gestão de resíduos, nas obras privadas e públicas. Pode-se citar ainda:

A diminuição de impacto ao meio ambiente, através do uso de materiais sustentáveis nas edificações, e adequados ao seu propósito. Avaliando itens como: a inércia térmica; a impermeabilização das superfícies; o balanço carbono; o comportamento acústico; impacto visual; tempo; e facilidade de manutenção.

A qualidade de vida, através de espaços que reúnam atributos tais como: lazer e cultura; acessibilidade; conforto ao usuário quanto à exposição à luz solar; sombra; ventilação; proteção sonora; qualidade arquitetônica e paisagística; proteção contra fontes de poluição; e segurança.

Coesão social e diversidade econômica, também são pontos determinantes, pois correspondem a geração de empregos, trazendo menos deslocamentos, e mais crescimento econômico e social.

E, por fim, um edifício sustentável! Que irá consumir menos recursos naturais, como água e energia, objetivando a integração de um projeto global, estético, e confortável, atendendo o desempenho e a qualidade esperados, com o mínimo de impacto no seu entorno, durante todo o seu ciclo de vida.

Leia mais: Melhado, A. R. et al. Projetar e construir bairros sustentáveis. São Paulo: Pini, 2013.

Cíntia Monteiro, é arquiteta e urbanista pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Habitação pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. Responsável por cerca de 350 projetos residenciais e comerciais e execução de mais de 500 obras. Docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Design de Interiores, Engenharia Civil e de Produção.

Matéria Revista AETEC nº 21 Edição.

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